"- Julio?
- Fala.
- Tô aqui na Pedroso, já. Vamu junto pro Largo?
- Não, obrigado.
- Mas por que?! Vai tá super animado!!
- Imagino, mas além de não ser o cara mais animado desse mundo, soube agora que expulsaram o grande Caco Barcellos de lá, e que estão rasgando bandeiras de partidos. Desculpa, mas isso não me parece muito democrático; aliás, acho o oposto.
- Ai, Julio! Como você é radical!!
- Eu??!!!
- É, você sim. Vai tá cheio de gente jovem e bonita lá, uma festa. Vamos nos divertir!!
- Olha, realmente não vou. Boa festa e ótima diversão pra ti, aproveite bem."
E desligamos. Achei desnecessário entrar em detalhes maiores sobre o que penso sobre esse movimento onde as pessoas vão às ruas simplesmente vomitar suas insatisfações, de maneira pouco argumentada, nada política. Também não quis dizer que nem quando mais moço, ia atrás de ~gente jovem e bonita~ e que nunca fui de festa. Por fim, espero que a Chris tenha se divertido e que eu não tenha perdido a amizade de mais de vinte anos. Se perdi, paciência. A entendo. Tem dias que nem eu me aguento direito. Coisas de sujeito cada vez menos sociável que sou. Tudo certo.
Quanto aos protestos, não vejo muito por onde ir. Vivemos num país sem oposição decente. Quando finalmente a tal da esquerda chegou ao poder, usou e ainda tem como base as mesmas forcas nefastas que nos levaram onde estamos. Questão de governabilidade? Provavelmente. Os únicos que tentaram governar sozinhos (Jânio e Collor) caíram por muito menos. Aliás, loucos de pedra, esses.
Claro que entender a situação não é concordar com a mesma. Mas acho que esse é um diagnóstico sem cura. A política de nosso país é uma grande metástase.
De maneira que os tiros devem ser certeiros.
No próximo dia 30, por exemplo, terá manifestação, contra os terríveis arrastões em restaurantes, que tem metido um medo danado na população comedora e bebedora média da cidade. Tem meu apoio. Não na rua, mas na escrita, onde acho que sou mais útil. Cada um ajuda com o que tem. E, falando em escrever, espero que esse movimento aprenda com o anterior, que tenha metas, que haja de forma política. Pois berrar, de maneira visceral, do nada para o nada, não adianta, não basta. Provemos que não somos apenas incompetentes reclamões. Aliás, é bom pensar também em que tipo de segurança queremos. O movimento é por mais PM nas ruas? Sei não, talvez me sinta mais seguro com os bandidos. Que tal colocar na pauta a legalização do armamento, pra que cada um possa se defender de melhor maneira, já que não há polícia que preste, em SP? Não sei, são só idéias...
O importante, nesse momento, é ir às ruas com devida organização, sabendo o que quer.
O MPL conseguiu o que queria, baixou a porra da condução. Ótimo. Mas, a que custo? Fiquemos de olho.
Vivemos sob a batuta de um governo que construiu estádios super faturados para a próxima Copa do Mundo, mas não melhorou em nada as condições de aeroportos, hospitais e, veja só, transporte público, uma de nossas maiores deficiências. Não aumentar a tarifa, por pressão popular, é bom começo, mas está longe de ser suficiente.
O que fiz, na noite em que o bicho tava pegando, no meu pedaço?
Fui jantar no único Sushi-ya do Brasil, o excelente Hamatyo. Yoshida-san não se intimidou com a baderna toda, e abriu suas portas corajosamente, para servir o ótimo produto de sempre, com destaque para o suculento niguiri de lula lá e o já clássico pinheirense Torô Chateaubriand, exclusividade da casa.
Na noite seguinte, quando os ânimos estavam ainda mais exaltados, retornei ao recém-inaugurado Minato Izakaya, aqui na Rua dos Pinheiros, 1308, um pouco pra baixo da Cunha Gago.
Lugar sem mesa, apenas com balcão, e basta. Ambiente simples, com cozinha despretensiosa e bons cortes de sashimi, executados com competência pelo gente boníssima Serginho, que trampou por anos no abominável Hideki. Suas suculentas ostras temperadas já valeriam a visita por si só, mas tem mais coisas. Da cozinha, as melhores opções saem da grelha movida à carvão, pilotada pelo outro sócio, Fabinho, que te receberá muito bem, pode ter certeza disso. Não hesite em chama-lo, pra perguntar sobre o melhor peixe disponível, na noite. Noite dessas, ele me preparou um pargo delicioso, com molho de umê bem equilibrado.O Buta no Kakuni, feito com barriga, também é bem decente. E não saia de lá sem comer a obrigatória moela no missô, muito sério isso.
Como já disse, cada um ajuda com o que pode. E aqui chamo a atenção de que existe uma nação toda que (sobre)vive à margem das recentes manifestações.
Essa postagem é uma homenagem aos pequenos comerciantes de botecos, bares, izakayas e restaurantes, que teimam em manter seus estabelecimentos abertos, apesar das dificuldades cada vez maiores, vindas de todos os lados.
Kampai!