quarta-feira, 19 de junho de 2013

Passeata ou Izakaya?


"- Julio?

- Fala.

- Tô aqui na Pedroso, já. Vamu junto pro Largo?

- Não, obrigado.

- Mas por que?! Vai tá super animado!!

- Imagino, mas além de não ser o cara mais animado desse mundo, soube agora que expulsaram o grande Caco Barcellos de lá, e que estão rasgando bandeiras de partidos. Desculpa, mas isso não me parece muito democrático; aliás, acho o oposto.

- Ai, Julio! Como você é radical!!

- Eu??!!!

- É, você sim. Vai tá cheio de gente jovem e bonita lá, uma festa. Vamos nos divertir!!

- Olha, realmente não vou. Boa festa e ótima diversão pra ti, aproveite bem."

E desligamos. Achei desnecessário entrar em detalhes maiores sobre o que penso sobre esse movimento onde as pessoas vão às ruas simplesmente vomitar suas insatisfações, de maneira pouco argumentada, nada política. Também não quis dizer que nem quando mais moço, ia atrás de ~gente jovem e bonita~ e que nunca fui de festa. Por fim, espero que a Chris tenha se divertido e que eu não tenha perdido a amizade de mais de vinte anos. Se perdi, paciência. A entendo. Tem dias que nem eu me aguento direito. Coisas de sujeito cada vez menos sociável que sou. Tudo certo.

Quanto aos protestos, não vejo muito por onde ir. Vivemos num país sem oposição decente. Quando finalmente a tal da esquerda chegou ao poder, usou e ainda tem como base as mesmas forcas nefastas que nos levaram onde estamos. Questão de governabilidade? Provavelmente. Os únicos que tentaram governar sozinhos (Jânio e Collor) caíram por muito menos. Aliás, loucos de pedra, esses.

Claro que entender a situação não é concordar com a mesma. Mas acho que esse é um diagnóstico sem cura. A política de nosso país é uma grande metástase.

De maneira que os tiros devem ser certeiros.

No próximo dia 30, por exemplo, terá manifestação, contra os terríveis arrastões em restaurantes, que tem metido um medo danado na população comedora e bebedora média da cidade. Tem meu apoio. Não na rua, mas na escrita, onde acho que sou mais útil. Cada um ajuda com o que tem. E, falando em escrever, espero que esse movimento aprenda com o anterior, que tenha metas, que haja de forma política. Pois berrar, de maneira visceral, do nada para o nada, não adianta, não basta. Provemos que não somos apenas incompetentes reclamões. Aliás, é bom pensar também em que tipo de segurança queremos. O movimento é por mais PM nas ruas? Sei não, talvez me sinta mais seguro com os bandidos. Que tal colocar na pauta a legalização do armamento, pra que cada um possa se defender de melhor maneira, já que não há polícia que preste, em SP? Não sei, são só idéias...

O importante, nesse momento, é ir às ruas com devida organização, sabendo o que quer.

O MPL conseguiu o que queria, baixou a porra da condução. Ótimo. Mas, a que custo? Fiquemos de olho.

Vivemos sob a batuta de um governo que construiu estádios super faturados para a próxima Copa do Mundo, mas não melhorou em nada as condições de aeroportos, hospitais e, veja só, transporte público, uma de nossas maiores deficiências. Não aumentar a tarifa, por pressão popular, é bom começo, mas está longe de ser suficiente.


O que fiz, na noite em que o bicho tava pegando, no meu pedaço?

Fui jantar no único Sushi-ya do Brasil, o excelente Hamatyo. Yoshida-san não se intimidou com a baderna toda, e abriu suas portas corajosamente, para servir o ótimo produto de sempre, com destaque para o suculento niguiri de lula lá e o já clássico pinheirense Torô Chateaubriand, exclusividade da casa.

Na noite seguinte, quando os ânimos estavam ainda mais exaltados, retornei ao recém-inaugurado Minato Izakaya, aqui na Rua dos Pinheiros, 1308, um pouco pra baixo da Cunha Gago.


Lugar sem mesa, apenas com balcão, e basta. Ambiente simples, com cozinha despretensiosa e bons cortes de sashimi, executados com competência pelo gente boníssima Serginho, que trampou por anos no abominável Hideki. Suas suculentas ostras temperadas já valeriam a visita por si só, mas tem mais coisas. Da cozinha, as melhores opções saem da grelha movida à carvão, pilotada pelo outro sócio, Fabinho, que te receberá muito bem, pode ter certeza disso. Não hesite em chama-lo, pra perguntar sobre o melhor peixe disponível, na noite. Noite dessas, ele me preparou um pargo delicioso, com molho de umê bem equilibrado.O Buta no Kakuni, feito com barriga, também é bem decente. E não saia de lá sem comer a obrigatória moela no missô, muito sério isso.

Pra beber? Embora a oferta de shochus e sakes ainda seja pequena, dá pra se virar. E o chopp é Heineken. O boteco acabou de abrir, e a simpatia vai além do atendimento, chegando nos preços acessíveis. Abre nas noites de segunda à sábado e é bom ir logo, antes que os malditos hipsters os descubram.

Como já disse, cada um ajuda com o que pode. E aqui chamo a atenção de que existe uma nação toda que (sobre)vive à margem das recentes manifestações.

Essa postagem é uma homenagem aos pequenos comerciantes de botecos, bares, izakayas e restaurantes, que teimam em manter seus estabelecimentos abertos, apesar das dificuldades cada vez maiores, vindas de todos os lados.

Kampai!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Carta Aberta à Paola Carosella



Caríssima,

Sabe a diferença entre o restaurante oriental, pro seu similar ocidental?

Pois bem...

No restaurante ocidental o sujeito entra, senta, abre o menu, escolhe o que quer, consome, paga a conta e vai embora. O saudoso Saul Galvão dizia que o cardápio é o contrato entre chef e cliente, algo assim.

No oriental é diferente. Quem escolhe o que você vai comer é o cozinheiro, que recepciona o freguês como se fosse nobre visita; para ele, é honra máxima receber alguém para alimentar. Pelo menos nos lugares mais sérios é assim que funciona.

Pro cozinheiro oriental, a comida é sagrada, orgânica. O trabalho dele é indissociável de sua vida pessoal. Tudo é uma coisa só.

Já na tal da restauração paulistana...

Puta cenário deprimente, onde ~chefs~ se preocupam mais com sua patética imagem midiática, ou com o inflado ego, ou com qualquer outra coisa que não seja receber o freguês, com comida gostosa, confortável e quentinha.

Pouquíssima coisa se salva no risível cenário dos novos endereços ~franco-italianos~ do cada vez mais caído ~pólo gastronômico~ dos Jardins sem flores. Maior prova é que a maioria dos lugares está bem caído, falido ou simplesmente fechado. Eu mesmo não tenho a menor curiosidade em provar o mais recente matriccianna meia boca da cidade. Não achei meu estômago no lixo e a saúde já não é mais a mesma. Não é porquê o tempo não foi nada gentil comigo que me maltratarei dessa maneira. Existem formas mais divertidas de me acabar, nesses dias que restam à esse obeso mórbido diabético sedentário hiper-tenso e cardíaco, que vos escreve.

Outra coisa, tenho essa mania besta de escrever. Não que ache minha opinião importante, sei me colocar em meu lugar e tenho plena consciência da insignificância humana. Mas a escrita é um tipo de terapia que sigo. Me divirto com isso, inclusive.

Escrever é o adiamento do suicídio.

E comer/beber bem hoje é o que me dá mais prazer. É como se fosse um flash de felicidade, no meio do tédio da minha existência mediana.

Daí a revolta quando encontro um(a) profissional que se importa mais, por exemplo, em tirar fotinho de suas viagens, que com seu serviço. E, por tantas vezes, escrevi sobre isso, entre outras coisas.

Acontece que, por aqui, vaidosos nada orientais confundem opinião sobre seu ~trabalho~ com ofensa pessoal e isso tem me dado no saco, cada vez mais. Minha cota de paciência com esse tipo de gente já se esgotou, respeitosamente.

E daí vem a falta de posts. Continuo escrevendo todo dia, mas só publicarei quando achar algo realmente relevante.

O que é o caso de hoje.

Acompanho seu trabalho desde a abertura do Arturito. Aliás, literalmente, já que, se não me falha a memória, fui o primeiro cliente a entrar em sua casa, no primeiro dia de funcionamento comercial.

No começo tinha várias reservas, mas depois passei a gostar bastante. Já escrevi sobre isso, aqui mesmo, nesse modesto balcão virtual. Não se preocupe, não serei redundante.

A real razão pela qual escrevo essa, é pra lhe dizer que considero hoje o Arturito como o restaurante mais completo da cidade.

Desnecessário entrar em detalhes sobre os produtos, mas fato é que do couvert ao café, passando pelas bebidas e (finalmente) serviço, tudo está no auge.

E com preços acessíveis. Quem diria que o Arturito se tornaria um dos restaurantes com o melhor custo-benefício da cidade?

Nesses tempos de crise, é preciso saber se reinventar. Coisa que você fez com excepcional maestria.

A restauração paulistana, tal como é hoje, está com os dias contados. No meu ponto de vista, não tem como a crise não piorar, infelizmente. Mas o Arturito é exemplo de solução, a ser seguido.

Essa carta não tem sequer um porém. E, por isso, pensei em envia-la particularmente, pra ~patrulha~ não me encher, chamar de puxa-saco, essas coisas...

Mas cheguei à conclusão de que faço questão olímpica de dividir minha opinião com os poucos leitores que me sobraram. Como já disse, acho essa carta relevante, daí a publicação.

Sei que trabalha há mais de vinte anos na área, e acompanho agora, com certa emoção, confesso, o crescimento de sua linda filha entre a cozinha e o salão do restaurante.

Paola, você é a exceção que confirma a regra que te contei no começo dessa carta.

Você e seu trabalho são um só.

Paola é Arturito e Arturito é Paola.

Sagrado, orgânico.

Se espirrar, saúde!

julio

p.s. - Rola tirar do set list aquela musiquinha da Vanessa da Mata com Ben Harper?

sábado, 25 de maio de 2013

Carta Aberta ao Alhos

Caríssimo,

Impossível não me sensibilizar com sua última postagem, com a qual concordo em gênero, número e grau.

Na medida em que envelheço e perco a saúde com inacreditável rapidez, minha vontade de me locomover é cada vez menor. Inclusive me desfiz do meu carro, na última semana. Despesa alta e desnecessária, já que mal o usava.

Mas me permita duas ou três palavras, sobre arredores, e desde já peço pra que não repare muito a péssima gramática, já que não sou exatamente assim um homem das letras.

Nasci, cresci e vivi a maior parte da vida na Lapa, onde devo ser enterrado logo mais. Conheço cada boteco de cada esquina do meu habitat. Frequentava também adoráveis panificadoras, a maior parte delas vive apenas na lembrança dos lapeanos mais veteranos, infelizmente.

Com o recente falecimento da minha mãe, por uma dessas estúpidas necessidades do homem médio que sou, quis mudar de ares e acabei em Pinheiros, local onde ainda estou exilado.

Embora não pareça, pela minha obesidade mórbida, gosto muito de caminhar. A São Paulo que gosto tem seu epicentro na Lapa, mas passa pela Luz, Barra Funda, Bom Retiro e Vila Leopoldina. Tudo plano, sem uma subida, pode reparar. 

E Pinheiros meio que acompanha essa obsessão minha. Considero o pedaço quase como um puxadinho da Vila Leopoldina, que é aqui colada.

Tudo isso para falar que por aqui não tem morro não, de maneira que as caminhadas podem e devem ser contemplativas, com maior facilidade. Pelo menos pra seres mais lentos, como esse obeso que vos escreve. Sei que não é o caso do cavalheiro.

Mas, acho que a grande diferença de Pinheiros para seu pedaço é que aqui tem mais lugares bons que médios, pra minha completa alegria.

Um mundo muito além dos botecos onde cresci. (e para onde hei de voltar, para bater as botas)

A começar pelo Chou, esplêndido restaurante, que sei que está entre suas preferências, e sobre o qual não preciso me estender sobre suas óbvias qualidades. Mas chamo a atenção que, bem na frente, tem ótimo ceviche, no Suri, se estiver por perto e quiser variar um pouco.

Na rua aqui de cima de casa, fica o Twelve, do Greg, onde além de caprichado almoço executivo, tem bom burger e batatas deliciosas. Pra acompanhar, boa cerveja e vinhos em mais que razoável faixa de preço. Sem falar no agradabilíssimo deck, onde posso levar meus cachorros.

Ainda na mesma rua, também com deck pra cachorrada, tem o excelente Donostia, lugar pra comer tapas e beber bons vinhos, por preço pra lá de camarada. Assim como o gostoso almoço executivo. No almoço ou no jantar, feche com o café de coador da Raposeiras.

Sushi? De segunda à sábado, Yoshida-san prepara com carinho e talento, unidade por unidade, enquanto sua senhora, Dona Kyoko, serve sake e o que mais quiser. Muito especial, o Hamatyo. Fica aqui na rua de baixo do Ed. Tristeza.

Falando em japonês, sabe que a vizinhança ganhou nessa semana um adorável Izakaya? E até o próximo mês Dona Margarida, do Issa, abrirá outro, aqui na Fradique! Qual outro bairro da cidade, que não seja a Liberdade, tem DOIS izakayas?!

Vinhos razoáveis, amaros bem bebíveis e outras necessidades se compra aqui no Empório Mercantil, adega 100% firmeza do bairro.

Mais burger? Experimente o novo Meats, que abriu meio irregular, mas já está bem melhor agora, vale a visita. Boa oferta de cervejas, também. Além de servir bom Negroni. Às vezes tem um Steak Tartar memorável, que deve ser provado.

Mas, falando em Negroni, com todo respeito ao MYNY, a melhor coquetelaria da cidade é servida pelo meu colega hoteleiro Danilo Nakamura, no Hotel Otyy. Eventualmente, o Edifício Tristeza também promove as já célebres Pug Nights, onde vizinhos se encontram para trocar impressões positivas sobre o bairro. Precisa ver a animação da moçada pinheirense, ávida por mostrar seu valor.

Falando em animação, se fizer questão de pão, aqui na rua de casa, a educada e sempre gentil Julice Vaz vende unidades saborosíssimas, sempre com bom humor e um profissionalismo de deixar até o Mestre Pasquale com inveja.

Mestre Pasquale que fica logo ali, se o cavalheiro não conseguir se segurar, de tanta vontade, pela massa que tanto devota.

Se as ruas planas te causarem certo tédio, recomendo subir o morro até o Arturito. Sei que o restaurante não está entre seus preferidos, mas insisto que o retorno vale ainda mais que a caminhada saudável. O restaurante mudou muito, nos últimos meses, inclusive no serviço. Além disso a comida, que já era ótima, está ainda melhor, creia-me. E a nova carta de vinhos tem preços acessíveis por bons rótulos. Até o café agora é decente! O trabalho da Chef Paola Carosella tá tão bonito de ver que chega a emocionar esse barrigudo esclerosado, com mais passado que futuro.

Outro fator importantíssimo: Em minhas caminhadas pelos Jardins (às vezes mudo um pouco os ares, até pra ter certeza de que onde moro continua melhor) nunca vi um black pug. Falha gravíssima, em minha desimportante opinião. Em Pinheiros existem pelo menos dois belíssimos exemplares, da mais nobre procedência.

Até os (fundamentais) lugares mais simples são perfeitos, em Pinheiros. Na Fradique tem o Jorge, japonês que serve sopa todo dia, mesmo que esteja mais de 40 graus. E maravilhoso quindim, além de PFs clássicos. Prefere pastel de feira? Na frente do Jorge tem uma lojinha do Pastel da Maria. Pastel de feira todo dia, pô! O de carne é excelente. Os outros não aconselho não...

Voltando pra Rua dos Pinheiros, um pouco pra cima do Meats, tem o Goshala, que existe pra provar aos paulistanos que comida vegetariana não precisa ser sem graça. Tudo muito bem cuidado, por lá. E é baratinho.

Em conta também é o botecão Novo Caviar, onde tem um puta misto quente decente, com as fatias de queijo entremeadas com o presunto. Não sei o que o cavalheiro pensa a respeito, mas algo que me emputece um tanto é misto de chapeiro preguiçoso, que simplesmente empilha um bloco de presunto em cima de outro de queijo, desequilibrando completamente o lanche. 

Sim, lanche. Porque boteco que se preze não serve sanduíche, não. Nem sachê de qualquer coisa. Felizmente não é o caso do Novo Caviar, que também tem a boa vontade de servir café de coador sem açúcar, se o senhor assim pedir.

Café melhor? Trabalhamos, sim sinhô! Três ruas pra baixo tem o Sofá Café. Puta café bom em lugar super tranquilo, onde dá pra ler um livro inteiro, se assim quiser.

Se estiver no pique da caminhada, vá ao bairro vizinho, na melhor cafeteria da cidade, da Dona Raposeiras. Com sorte, encontrará blacks pugs por lá, pois esse é um dos passeios preferidos de Shoyu, que é viciadão em aroma de café, e também do Negroni, que paga pequena paixão pela dona do estabelecimento.

Não considere as observações acima como bairrismo, já que, como já disse, nem daqui eu sou.

Mas, em seu lugar, consideraria trocar de bairro, pois o cotidiano pinheirense me parece mais aprazível. Inclusive se precisar de hospedagem, tenho certeza que tanto o Edifício Tristeza quanto o Hotel Otyy estão à sua disposição. A rede ainda conta com o Pud Inn, e mais catorze endereços, que preferem não ser divulgados, por questão de segurança.

Eu darei mais um tempo no bairro que me sustentou por cinco bons anos. Tenho esse romantismo bobo de devolver um pouco, ao lugar que me trouxe tanto.

Esses são meus arredores, esse é meu cotidiano.

E o senhor, quando vem?

Cordial abraço!

julio

domingo, 19 de maio de 2013

Porcada Cultural


No ano passado, logo após a Virada Cultural, escrevi sobre a carência dos paulistanos por boa comida de rua, que pode e deve ser base para o crescimento de nossa gastronomia. Até porque o alto custo da restauração paulistana atinge tanto o empresário, quanto o freguês, afastando ambos do negócio, inclusive.

Ainda sobre a Virada de 2012, especificamente sobre os Chefs na Rua, além da boa vontade de muitos, houve falhas grandes em organização, o que é absolutamente normal, já que a procura surpreendeu muito a oferta. Pena que, em 2013, o celebrado Alex Atala, que não foi bem sucedido em sua galinhada do ano passado, resolveu não dar a cara pra bater. Às vezes a melhor maneira de resolver um problema é não encara-lo. Pelo menos, para os mais covardes. Ou talvez Alex simplesmente prefira valorizar a priprioca à comida de rua. Vai saber...

Mas não tem problema, não.

Afinal, quem precisa de Alex Atala?

Desde os Chefs na Rua de 2012, muita coisa aconteceu. Henrique Fogaça e Checho Gonzales abriram um troço chamado O Mercado, que promove a comida de rua, em bem organizadas feiras, na média de uma vez por semana, se não me engano. Inclusive nesse último fim de semana, o evento atravessou fronteiras e parou no Rio de Janeiro, onde foi um sucesso, claro.

Na época da última eleição para prefeito, cheguei a enviar questionários sobre legalização de comida de rua para os então candidatos. A única educada e razoável comigo foi Soninha, e os dois principais candidatos (Serra e o atual prefeito) nem se deram ao trabalho de me responder.

Acabou que me resumi à minha insignificância e nem publiquei a pesquisa.

Posteriormente, através de todas mídias sociais, pessoas muito mais competentes que eu fizeram barulho considerável, a favor da nobre causa da legalização da comida de rua, com abaixo-assinado e tudo.

Um dos resultados positivos é que, no último dia 09/05, o Vereador Andrea Matarazzo apresentou à Câmara de Vereadores projeto de lei que regulariza a comida de rua, na cidade de São Paulo.

Embora o projeto tenha a estupidez de proibir a venda de bebidas alcóolicas, a lei já é um (bom) começo, melhor que o nada absoluto do presente.

Mas, retomando, proibir a venda de bebida alcóolica seria de um autoritarismo absurdo, seria chamar o paulistano de ser pouco civilizado. Numa época em que discutimos sobre a legalização de drogas, voltaremos à Era das Trevas da Lei Seca?

A comida de rua pode e deve ser alternativa não somente aos restaurantes, mas também aos bares, de maneira que seria razoável reconsiderar a cláusula que próibe a venda do goró.

Até porque a coisa deve ser democrática, para todo tipo de público. Bom será se, junto aos dogueiros, se juntem vendedores de arepas colombianas, ceviches peruanos e barreados paranaenses. Ideal é que o panorama também tenha trailers de coquetelaria e bancas com ostras e espumante. Burger com cerveja, por que não? As possibilidades são infinitas...

Por isso, insisto que a liberação do álcool é de extrema importância para que a lei funcione da melhor maneira possível, tanto para os comerciantes, quanto para os cidadãos.

Ainda aproveitando o gancho do álcool, triste acontecimento me chamou muito a atenção nesse fim de semana, na Virada Cultural de 2013: Os mesmos PMs que puniam com rigidez espartana a pobres vendedores ambulantes de cerveja, assistiam com indiferença existencialista aos inúmeros arrastões que quase arruinaram o evento. Taí uma prova que deve existir prioridade maior que perseguir a quem vende álcool.

Aliás, já passou da hora de pensar na desativação dessa ineficaz polícia, infeliz herança de nossa abominável ditadura militar.

Mas, embora não tenha acompanhado muito a tal programação cultural da Virada, até que fiquei bom tempo nos Chefs na Rua, apadrinhado nesse ano pelo competente chefão Jefferson Rueda que, com a organização, realizou belo serviço, com pouca fila e muita comida boa.


A começar pela inacreditável estrutura criada por ele e sua própria família, para servir o delicioso Porco à Paraguaia, comida muito popular em festas do Interior Paulista.

Dias e dias de trabalho para servir oito porcos, mais um monte de tutu de feijão, resultando em mais de uma tonelada de comida, servida a milhares de pessoas, que se divertiam muito. Pelo menos nas horas em que passei lá, só vi rostos felizes e satisfeitos. Muitos com inocentes latinhas de cerveja à mão. Viu, Vereador?

A edição dos Chefs na Rua desse ano provou que comida mais sofisticada pode e deve ser servida para o povo, sim.

Assim como O Mercado vem provando, durante esse ano todo, que existem pessoas um tanto cansadas com a formalidade dos restaurantes.

Só falta convencer o nobre vereador que o álcool tem valor a ser agregado à esse mercado, não o oposto.

Também acho que a legalização da comida de rua deve agilizar o processo de abertura de restaurantes mais dinâmicos, com brigadas menores, menus mais curtos e preços mais baixos, claro.

Se o que impera é a Lei da Oferta e Procura, a melhor coisa que deve ocorrer na gastronomia é a óbvia melhora da oferta, que aliás anda bem escassa, em qualidade e variedade.

A hora é de união, para um bem maior.

Afinal, quero comer Porco à Paraguaia, com cerveja, no Largo do Arouche, durante o ano inteiro.

Um brinde à nova lei, Vereador!

Bebamos a isso!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

MYNY


Demorei mais de dois anos pra entrar no MYNY, por puro preconceito com o bairro. Tanto que não cheguei a conhecer o trabalho do premiado barman que inaugurou a casa e trampa hoje nos Jardins em um restaurante que já desisti de entrar por duas vezes, dada a quantidade de playboys que desfilava na frente do logradouro, com aquela inconfundível postura pré-balada. Talvez haja preconceitos que devem ser mantidos.

Talvez.

Mas outros não, certamente.

Foi numa noite dessas, passando na frente do bar em questão, após mais um dos meus inúmeros jantares frustrados, que me enchi de coragem e entrei no recinto.

A coquetelaria, hoje comandada pelo talentosíssimo Spencer Jr, é brilhante e merece não só a visita, como a frequência.

Afinal, que outro lugar no Brasil tem a moral de fazer o suco de tomate na própria casa, para o obrigatório Red Snapper (Bloody Mary com gin)?

O que dizer então da formidável oferta de negronis da casa? Meu preferido é o gaseificado, mas há também defumado, envelhecido, clássico...

O Dirty Martini vem com um pouco mais da água da azeitona, pro freguês sujar o coquetel ao seu gosto.

Old Fashioned? Simplesmente não conheço um que tenha a honra de ser comparado ao do MYNY Bar.

Do MYNY ou do Spencer? Do MYNY, sim senhor. Porque, entre outras qualidades, o sempre gentilíssimo Spencer chefia bem sua equipe, a ponto dos drinks executados por sua brigada serem tão bons quanto os seus. Coisa rara de ver, em coquetelaria.

"Aaaah...Mas no Brasil não tem tônica boa!" <== Já ouvi tanto, por aí...

Sem problemas. O MYNY gaseifica sua água na casa, de maneira que serve o melhor Gin Tônica que já bebi.

Mixologia? Passo. Nem sei se trabalham com isso, lá. Mas no menu não li nada com gelatinas ou outras coisas do gênero. Ainda bem. Estou melhor, assim.

Embora os preços não sejam tão em conta, os drinks são muito bem servidos. No MYNY não tem enganação, nada é regulado. E todos ingredientes usados nos coquetéis são de excelente procedência, o que tem seu óbvio custo. Inclusive a oferta de gins e bourbons é ótima, sem igual na cidade.

Nas caixas de som predominam jazz e blues de qualidade, bem longe do poperô que impera no bairro que já foi a chácara do Seo Leopoldo Couto Magalhães.

Indico a visita para as primeiras noites da semana, de segunda à quarta, quando o movimento é mais tranquilo, e é possível sentar no balcão com certa tranquilidade. Aliás, quando for, me faça um favor e NÃO sente à mesa, a não ser que não seja bom bebedor. Mas, nesse caso, talvez seja melhor ir pra outro lugar logo, daqueles que servem porçãozinha, pra comer com choppinho.

Bar é balcão.

Minha média de consumo, se não tiver bebido nada antes, é algo em torno de 6 a 9 drinks, dependendo do ânimo. Razoável para um ser com mais passado que futuro, não?

Mas, se o cavalheiro ou a amiga dona de casa que me lê nesse momento tiver uma média de consumo parecida com a minha, recomendo que almoce muito bem no dia anterior à noite da bebedeira. E que beba bastante água, claro.

Se tem algo pra comer lá? Olha... Até tem, mas a cozinha não é o forte da casa não. Bons croquetes de Kobe e esforçados Mini-Burgers podem te socorrer, no caso dessa necessidade.

Ponto de taxi na porta, nem pense em ir dirigindo. Mas, se cometer essa estupidez, tem estacionamento 24 horas na frente, pra você voltar no dia seguinte, antes da abertura do bar (acho que às 16:30), pra não fazer tudo de novo, o que se por um lado não seria de todo mal, por outro pode se transformar num processo sem fim, o que também não seria de todo mal.

Fato é que enquanto saúde física e financeira me permitirem, continuarei a frequentar o bar, com o maior prazer. Aliás, após o terceiro ou quarto goró, sempre imploro pros manos mudarem de bairro. Quem sabe não os convenço, qualquer noite dessas? Pinheiros tá bem legal, viu? Inclusive, se precisarem de um mascote, lembro que um dos meus cachorros se chama Negroni e até curte o drink, como demonstrado no retrato logo abaixo. Se liga como o bichinho fica à vontade, na nobre companhia de seu homônimo...


E, já que não abre um bom bar de coqueteis num bairro legal de verdade, não vai matar ninguém ir ao MYNY Bar, mesmo que de vez em quando. Juro que vale a viagem e cada centavo.

Por fim, quero compartilhar com vocês, minha meia dúzia de teimosos leitores, que consegui terminar esse texto sem usar nenhum clichê do tipo "Um oásis no meio do Itaim-Bibi".

Ufa!

E você? Tá esperando o que pra ir ao MYNY Bar?

terça-feira, 30 de abril de 2013

Boicote SP vs Olivier Anquier

Tenho discutido sobre os altos preços praticados na cidade há anos, desde o começo da história desse blog, inclusive mostrando de diversas formas o alto custo de quem é louco o suficiente para ter um restaurante, especialmente em São Paulo. Pois é preciso entender o porquê do preço final tão caro e conhecer melhor o (Estado) inimigo. Não repetirei tudo, pois não quero soar redundante. Acho que meu recado já está dado.

Até porque, nessas últimas semanas surgiu um site (Boicota SP), com a pretensão de provocar discussão entre clientes e restauradores insatisfeitos, cada qual com seus motivos.

Embora o debate parta sempre de uma denúncia de consumidor, invariavelmente sem filtro, muitas vezes de maneira ignorante e desnecessariamente agressiva, fato é que o site deu mais resultado positivo em duas semanas que eu em mais de cinco anos de blog. Talvez tenha chegado a hora de eu me aposentar mesmo.

O que importa é o enorme alcance provocado pelo debate. No próprio site, e na Folha de São Paulo (que seguiu atrás), alguns chefs de cozinha e empresários do ramo tentam explicar os motivos pelos quais os preços andam tão altos. Aliás, coisa que já fiz aqui também, abrindo espaço para Paola Carosella, que se defendeu brilhantemente, há alguns anos.

No jornal, eficiente defesa teve Janaína Rueda (na Folha), explicando o alto custo de seus ótimos ingredientes, além da insanidade que é manter um bar no centro de São Paulo, e todos os problemas que isso envolve.

Exemplos ruins, de defesas que queimam o filme da classe restauradora, também não faltam. Como no caso do debate (TV Folha) entre o criador do site e do neto de padeiro Olivier Anquier, que perdeu completamente a linha, agindo de maneira estúpida e desequilibrada, simplesmente agredindo o autor, sem razão alguma, de maneira extremamente preconceituosa, assim como já tinha feito em seu merdíocre texto, publicado no jornal. Isso, com a ajuda do passivo mediador, a anta do Josimar Melo, esse profissional pouco competente, sem qualificação alguma.

Se meus quatro ou cinco leitores tiverem algum interesse em se aprofundar nas discussões citadas acima, peço que recorram aos sites de busca, pois não sou muito jeitoso com links.

No final, quem ganha é o consumidor, que com mais informação, passa a ter cada vez mais parâmetros pra decidir sozinho se o produto ou restaurante deve ser boicotado ou frequentado.

Até porque o que não falta  é gente que cobra caro, simplesmente baseado apenas na tal lei da oferta X procura. Há sempre quem se aproveite da situação. A besta do Olivier mesmo, disse em seu depoimento que "Se tem quem compre um ovo de 200 reais, não há problema algum, ninguém tem nada a ver com isso".

Pois discordo frontalmente da opinião do ex marido da Beth Balanço. Acho que moramos em um país de terceiro mundo, e todos temos responsabilidade sobre seu crescimento, por mais que o Estado se empenhe em prejudicar o trabalhador e o empregador, inclusive com execráveis leis trabalhistas, herdadas de Getúlio Vargas. Aliás, cabe a nós combater isso também. E a primeira coisa é ter consciência do problema como um todo, ao contrário do que parece sugerir o francês, que serve a pior mousse de chocolate do planeta, em seu caro e horroroso restaurante, que se empenha em servir entrecote com molho aziatico, por preço de bistrô francês requintado.

Sobre restauração, meu palpite é que ocorra aqui o mesmo movimento que acontece na Europa há alguns anos. Surgirão novos e inúmeros (assim espero) lugares com logística mais inteligente, poucas e boas opções de serviço e menu, resultando assim em preços mais acessíveis para todos.

Afinal, pra que tanto sommellier, maitre e (maldito) manobrista? São Paulo é uma cidade grande, onde há espaço pra todo tipo de negócio. Estamos engatinhando ainda. Que venha o progresso, a evolução.

Viva o Boicote SP, que teve o inegável mérito de ampliar discussão tão importante para nossa gastronomia.

Enquanto isso, do outro lado da mídia, o editor do principal caderno de gastronomia da cidade, Ilan Kow, se associa à Alex Atala, num instituto que faz estúpido trocadilho com seu próprio nome, "Atá".

Deprimente ver um profissional (até então) sério do jornalismo se tornar notícia. Com que isenção o Caderno Paladar criticará o sócio de seu editor, agora? Que péssimo exemplo!

Mas não tem problema não. Que venham mais sites e blogs, com alcance cada vez maior, pra compensar a falta de seriedade e competiencia dos cadernos de gastronomia dos dois principais jornais paulistanos.

Sendo isso que tinha para lhes dizer, agora peço licença para voltar ao meu retiro de aposentados velhinhos e barbudos.

Pois o importante é ser velho de espírito. E bom álcool (ainda) não tem faltado, aqui no modesto asilo onde resido.

Força na viga, rapaziada!

sábado, 13 de abril de 2013

Boca de Ouro


Não, não sumi.

Apenas tenho cumprido a promessa de só voltar aqui quando tiver alguma coisa relevante pra dizer. Continuo indo na mesma meia dúzia de lugares de sempre. E me divertido, claro. Sugiro que cada um faça o mesmo.

A enorme quantidade de opiniões, resenhas e críticas em cada vez mais blogs, revistas, jornais, twitters e instagramers (!!) tem me virado o estômago, e confesso acompanhar cada vez menos as novidades; deixei de ver especialmente a mídia impressa, da qual já escrevi o que penso à exaustão, aqui nesse largado balcão virtual.

Nesses tempos em que muitos se preocupam mais em tirar a foto do prato, que em come-lo, é preciso muito cuidado para não perder a capacidade contemplativa, para não perder o prazer que um bom drink ou uma comida especial pode e deve te trazer.

Pois eis que nessa semana, andando pelo bairro onde estou exilado, conheci um bar aberto há uns três meses já, e que passou despercebido por mim, justamente por não acompanhar mais essa tal de mídia especializada.


Sem problemas, já que o bar estava ali, sereno, com seu belo balcão esperando por mim, sem a mínima pressa.

Um aconchegante balcão, com dezesseis lugares, e só. Em cima até tem mesa de bilhar que provavelmente não chegarei a conhecer, já que não se trata de meu esporte preferido.

Pra beber, boas cervejas por preço acessível e coquetelaria bem bebível, feita com o maior carinho, por um dos sócios da casa, que desistiu da profissão de jornalista pra atender bebuns.

No curto, porém suficiente cardápio os petiscos custam entre oito e doze dilmas, mas valem muito mais.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a porção de torresmo (10 réal), essa especiaria tão difícil de encontrar feito de maneira pelo menos razoável, na cidade.


Frita na hora do pedido, a ótima barriga de porco chega ao balcão confortavelmente quentinha, com gordura, carne e pele crocante na medida certa. Coisa rara, ainda mais por esse preço. Vai bem com Negroni.

Ainda no departamento de frituras tem deliciosa e sequinha batata doce. Cortada com a casca, desce bem com a cerveja.

O boteco com nome de peça do Nelson Rodrigues também oferece um ovo com tomate e queijo que deve ser comido com colher, e finalizado com o pão raspando a tigela.

Se quiser algo com mais substância, não dispense a suculenta rabada, servida com pirão feito a partir do caldo da própria carne.


O lugar é escuro na medida certa e tem uma das melhores trilhas sonoras da cidade. Considero ideal pra ir sozinho e passar boas horas no canto do balcão, tranquilamente.

Fica ali na Cônego, no sobradinho que abrigou o primeiro Coffee Lab, por algum tempo. Ou seja, gosto do imóvel não é de hoje.

Em princípio pensei em não escrever sobre o pequeno comércio, por razões obviamente egoístas. E se o lugar lotasse de foodies, hipsters (perdão pela expressão) e instagramers?!

Mas não me sentiria bem se não compartilhasse a informação com a meia dúzia de leitores que me sobrou, que sei que se liga num bom bar. E o Boca de Ouro é bar pra quem gosta de bar. Do tipo que prefere conquistar um freguês, a atender o cliente. Lugar onde os entusiastas de plantão fazem uma única visita, e logo voltam para o bar de plástico de onde sairam, famintos por uma comidinha qualquer.

Tá bom assim.

E você? Onde vai beber hoje?